De olho em Torquato Jardim

O novo ministro da Justiça, Torquato Jardim, semeou dúvidas em sua entrevista ao Jornal Nacional neste derradeiro dia de maio. Ele avisou que pode tudo, inclusive trocar o diretor geral da Polícia Federal no cargo desde 2011 e considerado peça-chave na engrenagem da Lava Jato.

Disse também que as decisões serão tomadas “em colegiado com outros ministros” e que a palavra final será de Temer.

Nada mais temerário.

Temer, o investigado, decidirá quem ocuparia o cargo que o afeta diretamente.

O recado de Jardim é claro: se Temer quiser, a Lava Jato pode sofrer interferência política explícita.

Ele deixou explícito que, na mais grave crise moral e institucional do País, não hesitará em beijar a mão de chefe e zombar dos brasileiros.

Ah, o ministro da Justiça (!) disse também que, para ele, não interessa se a doação de campanha foi feita com dinheiro sujo ou caixa 2, desde que tenha sido registrada formalmente. “Não interessa a origem.” Todos, menos ele, poderiam dizer tal absurdo.

Esse merece vigília multiplicada.

torquato jardim

A última impressão

Capa-Gazeta-do-Povo

A Gazeta do Povo circulou hoje, 31 de maio de 2017, com sua última edição impressa (a imagem que acompanha esse post é de uma edição anterior). A partir de agora, é um jornal digital. Afinal, o que levou a esse fim o jornal que foi o maior do Estado por décadas e parecia imbatível em todos os sentidos?

A resposta não é tão simples como pode parecer.

Poderíamos dizer que ela foi vítima da era da informação, regida pela internet rápida e pelo avanço das novas tecnologias. De fato, a Gazeta foi atropelada pelas mudanças. Mas não foi apenas isso.

A questão maior, penso eu, diz respeito à essência de um veículo de comunicação, seja jornal, rádio ou televisão: o conteúdo. Esse é o produto do jornalismo, não o papel impresso, a imagem levada ao ar ou o texto falado na rádio. É a qualidade do conteúdo que torna o jornal relevante na vida dos leitores.

Qualquer desvio desse eixo e a desconstrução se instala.

Não se pode dizer que tenha sido exatamente esse o caso da Gazeta do Povo, muito menos que tenha ocorrido só com ela. Na realidade, essa perda de consistência editorial é vista claramente em outros veículos brasileiros, nos que ainda restam. Em algum momento, esses veículos passaram a priorizar outras atividades ou setores e empobreceram suas redações.

Essa fórmula engana bem, mas apenas pouco breves períodos, porque as consequências vêm em seguida. Com conteúdo enfraquecido, o interesse do leitor se vai e com ele o anunciante.

Hoje temos muito conteúdo de qualidade nos sites, blogues e redes sociais e cada vez menos nas páginas impressas.

O resultado não poderia ser outro.

A Gazeta do Povo impressa se foi. Outros deverão segui-la.