Dinheiro do FGTS vai pro caixa dos grandes bancos

O discurso do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, na prévia do que deve ser o pacote de medidas com o qual o governo Temer pretende incentivar a a retomada da atividade econômica do País, inspira cuidados. Há muito o que explicar. Principalmente pela primeira ferramenta anunciada do tal pacote: o incentivo ao crédito.

OK, o crédito é uma peça elementar em qualquer economia livre. Mas a aposta de Meirelles é a autorização do uso do saldo do FGTS por trabalhadores endividados para que, assim, possam voltar a contrair empréstimos e retomar o consumo. Essa seria uma estratégia de microeconomia capaz de gerar resultados mais efetivos que medidas macroeconômicas, como o ajuste fiscal.

Epa! Ficou confusa a coisa.

O mais preocupante, porém, é que a autorização do uso do FGTS para quitar dívidas vai irrigar principalmente o caixa dos grandes bancos de varejo – que são em número cada vez menor no Brasil. Isso porque a inadimplência é muito maior e mais feroz exatamente no sistema financeiro – cheque especial e cartão de crédito – do que no comércio ou no setor de serviços.

Não seria exagero supor que essa medida tem a mão dos grandes bancos, os mesmos que vêm dando as cartas no Brasil há várias décadas, independente do regime ou da cor dos governos.

O brasileiro paga os maiores juros do planeta. Paga muito mais do que se poderia considerar razoável. Em muitos casos – para não dizer na totalidade – a inadimplência imputada aos correntistas é fruto de juros escorchantes, que fogem a qualquer lógica de mercado.

Pelas taxas praticadas no resto do mundo, a grande maioria dos devedores não teria mais nada a pagar ao banco e teria direito, inclusive, que receber um bom valor que pagou a mais.

Em outras palavras, grande parte da inadimplência simplesmente não existiria se tivéssemos taxas civilizadas de juros.

Confira os juros cobrados no cheque especial pelos grandes bancos:

Banco juro mês juro anual
BCO DO BRASIL S.A. 12,22% 299,03%
CAIXA ECONOMICA FEDERAL 12,29% 302,03%
BCO BRADESCO S.A. 12,41% 307,16%
BANCO GERADOR S.A. 12,68% 318,77%
ITAÚ UNIBANCO BM S.A. 12,88% 328,08%
BCO DAYCOVAL S.A 13,96% 379,79%
BCO CITIBANK S.A. 14,36% 400,60%
BCO SANTANDER (BRASIL) S.A. 15,22% 447,29%
BCO MERCANTIL DO BRASIL S.A. 16,28% 510,83%

Pesquisa do Banco Central do Brasil no período de 24/11/2016 a 30/11/2016

No cartão de crédito, a voracidade é ainda maior:

Instituição
juros ao mês
juros ao ano
ITAÚ UNIBANCO BM S.A.
18,05%
632,11%
AVISTA S.A. CFI
25,01%
1.356,54%
LUIZACRED S.A. SOC CFI
18,05%
632,62%

À primeira vista, a iniciativa do governo parece positiva para o cidadão que está atolado em dívidas, mas quem vai sair ganhando com essa manobra, na verdade, são os senhores do dinheiro brasileiro.

Infelizmente, essa história vai se repetir.

 

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