Cartéis também merecem panelaço

Há um lado da Operação Lava Jato que sem dúvida alguma merecia mais atenção do que vem recebendo por parte da população e dos veículos de comunicação. Nada que reduza a gravidade dos atos desonestos cometidos pelos políticos dos mais diversos partidos e posições nos órgãos de governo. Mas que deveria estar no centros das discussões.

A corrupção empresarial é tão desastrosa para o país quanto a dos agentes políticos, até porque sempre estiveram ligadas intimamente.

A Operação Lava Jato escancarou o que alguns poucos ousaram questionar nas últimas décadas no Brasil, que são os cartéis. Eles sempre existiram e, mais recentemente, passaram a reinar quase intocáveis.

O cartel das empreiteiras, das montadoras, dos grandes bancos varejo, entre outros.

Esses grupos cometem crimes que vão muito além da corrupção. O principal deles é deturpar as leis de mercado, em especial a relação entre oferta e demanda. Numa economia dominada por cartéis, não interessa se há menos dinheiro em circulação, os preços vão subir do mesmo jeito, porque o lucro não pode cair.

Estamos vendo isso claramente hoje com o mercado de carros novos. Com as vendas em queda, os preços simplesmente subiram. Ou seja, se as montadoras vendiam 10 mil carros por dia e hoje vendem 80, então os 80 compradores vão pagar mais para que a margem de lucro das empresas fique no mesmo nível.

Isso só ocorrem quando as indústrias conseguem agir em bloco, ou seja, nenhuma delas vai fazer liquidação de preços para atrair mais compradores. Se ninguém fura o trato, todas estão salvas da queda nos lucros.

E quem paga é o cidadão, que não tem para onde correr.

Há alguns anos, quando chegou ao Brasil uma marca de carros chinesa, o cartel atacou pesado o governo do PT  e conseguiu alterar a legislação tributária para sobretaxar os veículos da montadora asiática. Resultado: os carros da marca, que eram bem mais baratos, chegaram nos preços das indústrias que já atuavam no Brasil.

E assim o brasileiro segue pagando mais caro nos carros do que em qualquer outra parte do mundo. E não pense que isso é culpa da tributação brasileira, já que em países onde a carga de impostos é maior do que a nossa os veículos custam menos.

O custo financeiro também chegou a um nível insuportável no Brasil. Injustificáveis são as taxas de juros no cartão de crédito, no cheque especial e nas outras linhas de financiamento, principalmente para o correntista normal.

E não há qualquer tributação sobre os bancos que justifica tamanha voracidade. Nenhuma. Os grandes bancos de varejo mandam nas taxas que praticam com tanta liberalidade que colocam o preço que querem no seu produto, que é o dinheiro emprestado ao cidadão.

Se a economia nacional vai bem, os juros permanecem altos. Se surge uma crise, aí eles ficam ainda mais altos. Se as coisas melhoram no cenário nacional, as taxas não recuam… e por aí vai.

Assim como as empreiteiras, os grandes bancos de varejo e as montadoras passaram a dominar os mercados onde atuam. Fazem isso para criar condições favoráveis aos seus negócios e lucros.

Aliás, numa economia de mercado o lucro é sagrado. A cartelização, porém, é um crime – inclusive no Brasil. O cartel, portanto, é uma ameaça elementar ao capitalismo, por promover o desequilíbrio nas relações de mercado, com graves consequências para o conjunto todo.

Parte desses cartéis está nas mãos dos promotores e juízes da Lava Jato. Porém, ao contrário da banda política, recebe pouca atenção.

Os cartéis também merecem panelaço.

 

 

 

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